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Embora seja possível encontrar considerações que tratam eventos como algum tipo de entidade desde a antiguidade, a reflexão filosófica que dá origem à noção de eventos tal como ela é utilizada nas análises linguísticas origina-se na obra do filósofo americano Donald Davidson (1917-2003), mais especificamente no seu texto “The Logical Form of Action Sentences”, de 1967.
O título do texto de Davidson marca uma distinção que as análises linguísticas podem ignorar, que é aquela entre ações e eventos: ações envolvem algum tipo de controle e/ou agentividade e os eventos não necessariamente. Assim, erguer um braço pode ser um evento, mas acenar para alguém com um levantamento do braço é uma ação. Como em análise linguística tal distinção não é vital, e quando necessário ela é indicada pela escolha de diferentes papéis temáticos, trataremos ação e evento como termos sinônimos.
A ideia que Davidson expõe naquele texto é que as sentenças de ação, ou melhor, os verbos de ação, introduzem na sentença, para além de seus argumentos esperados (sujeito e objeto, por exemplo), um outro argumento, que se referiria a uma outra entidade, a um evento. Um movimento como esse não apenas postula que os verbos de ação têm um argumento superficialmente “invisível”, mas também aumenta a ontologia no sentido de que nos obriga a contar não só com o tipo de indivíduos habitualmente reconhecidos (pessoas e objetos), mas também com indivíduos de um novo tipo, os eventos. Para apreciar o poder da proposta davidsoniana, é necessário atentar para alguns detalhes de forma lógica, como, novamente, o nome do texto de Davidson indica. Em lógica clássica, sem eventos, a sentença (1) teria como forma lógica (1a); (1b) é a forma lógica de (1) na chamada abordagem davidsoniana e (1c) na abordagem neo-davidsonia (Parsons, 1990), que incorpora a noção de papéis temáticos:
(1) João falou com Maria
(1a) FALAR-COM(j,m) = João e Maria estão na extensão do predicado FALAR-COM
(FALAR-COM(x,j,m)) = há um evento x, tal que x é um evento de FALAR-COM que relaciona João e Maria
(1c) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \exists(e)
(FALAR-COM(e)Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge
AGENTE(j)Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge PACIENTE(m)) = existe um evento e, tal e é um evento de FALAR-COM e João é o agente do evento 'e' e Maria é o paciente do evento 'e'
A fórmula representada em (1a) fala apenas dos indivíduos, 'João' e 'Maria', representados respectivamente por 'j' e 'm' e conta com o predicado FALAR-COM; por sua vez, (1b) e (1c) falam de mais um indivíduo, o evento 'e' (ou ‘x’ em (1b)), que é um evento de 'falar com'. É com relação a essa terceira entidade que surgem os problemas ontológico-metafísicos: qual é o estatuto metafísico dos eventos? Quais são suas condições de identidade e individualidade? Quando dois eventos são iguais ou diferentes? Mesmo com tais questões ainda por serem respondidas, a proposta de Davidson dá conta de vários problemas que as sentenças de ação tradicionalmente apresentam, como o número variável de argumentos que essas sentenças aparentemente têm (o problema da n-adicidade), a causalidade, a agentividade, etc.
O texto de Davidson data de 1967, porém, a entrada de suas ideias para a linguística é mais tardia, entre o fim da década de 1970 e o começo da de 1980; salvo alguma imprecisão, é com os trabalhos de Bach (1980, 1981) e Higginbotham (1983) que os eventos passam definitivamente a fazer parte do aparato explicativo da semântica (e da sintaxe) das línguas naturais. A partir de então, o leque de problemas que passaram a ser tratados mediante a noção de eventos aumentou em muito: atualmente, além do que mencionamos no parágrafo acima, a noção de evento é mobilizada para tratar não apenas de problemas de aspecto, acionalidade e outros no interior do que podemos chamar de domínio tempo-aspectual, mas também de problemas que envolvem nominalizações, verbos de percepção, a semântica de relações explicativas e de desculpas, etc. Particularmente interessante, é o caso das nominalizações; tomemos as sentenças abaixo:
(2a) Uma bomba explodiu no Afeganistão. (2b) Uma explosão de bomba no Afeganistão.
Segundo a abordagem neo-davidsoniana, tanto (2a) quanto (2b) teriam a mesma forma lógica:
(2c)Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \exists(e)\exists(x)
(EXPLODIR(e) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge
TEMA(x) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge BOMBA(x))Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge EM(e, Afeganistão))= existe um evento e, tal QUE e é um evento de EXPLODIR e existe um x, tal que x é uma bomba; x é tema de e e e aconteceu no Afeganistão
Com (2c) capturamos a intuição de que (2a) e (2b), a princípio, significam a mesma coisa, e explicamos tal fato.
A intuição de que os eventos fazem parte do inventário do mundo é muito forte, mesmo que não o seja à primeira vista. Na fronteira entre filosofia, lógica e linguística, são dois os principais argumentos para querer que os eventos, ao lado de objetos e propriedades, estejam presentes no “inventário do mundo” (cf. Macdonald, 2005, pp. 181-186); uma primeira formulação deles pode ser: 1) algumas sentenças parecem implicar\indicar\requerer a existência de eventos ao falar explicitamente de eventos; 2) com uma ontologia de eventos podemos lidar com o problema da n-adicidade variável ou da poliadicidade de sentenças que envolvem eventos.
Uma apreciação melhor de como procede o primeiro argumento pode ser a seguinte: algumas sentenças pressupõem normalmente a existência de objetos, e nós aceitamos que alguns desses objetos são reais. Às vezes, certos mecanismos gramaticais muito parecidos são mobilizados para falar de coisas que não são objetos, mas compartilham algumas propriedades com os objetos. Chegamos assim a vislumbrar objetos de um tipo particular, os eventos. Como exemplo de sentenças que apóiam o primeiro argumento, temos:
(3) João viu a explosão do vulcão.
(4) Os meninos foram embora depois do cantar do hino.
(5) João passou manteiga no pão ontem. Eu soube que ele fez isso no banheiro.
Os termos em itálico parecem todos pressupor (num sentido não técnico) uma entidade que não é um objeto. Se a sentença (3), por exemplo, tratasse de “cadeiras”, como em “João viu a cadeira”, poderíamos associar uma pressuposição de existência para a entidade “(a) cadeira”, e esperar que (pelo menos) uma cadeira de fato exista. O mesmo raciocínio se dá, mutatis mutandis, para “a explosão do vulcão”. Haveria aqui mais um passo a ser dado ainda: argumentar não só que “a explosão do vulcão” tem uma referência, mas que essa referência é um evento e não um objeto, e uma maneira de fazer isso é apelar, por exemplo, para propriedades seletivas de predicados, ou seja, utilizar a ideia de que os predicados selecionam os seus argumentos semanticamente e operar então com predicados que demandem ou selecionam eventos. Um caso óbvio seria o predicado “acontecer”, que se combina exclusivamente com eventos, como atestam as sentenças:
(6a) ?? A cadeira aconteceu ontem.
(6b) A explosão do vulcão aconteceu ontem.
Se o primeiro argumento leva em conta a nossa intuição de que certas expressões lingüísticas se referem a eventos, o segundo argumento tem por função resolver, por assim dizer, um problema técnico: a n-adicidade variável de sentenças de ação. Esse problema pode ser assim exemplificado: a formalização em cálculo de primeira ordem, sem eventos, para as sentenças (7), (8) e (9) resulta em (7b), (8b) e (9b):
(7) João passou manteiga no pão com a faca de manhã.
(7b)PASSAR5(joão,manteiga,pão,faca,manhã)
(8) João passou manteiga no pão de manhã.
(8b)PASSAR4(joão,manteiga,pão,manhã)
(9) João passou manteiga no pão.
(9b)PASSAR3(joão,manteiga,pão)
Intuitivamente, sabemos que se (7) é o caso (i.e., é verdadeira), então necessariamente o é (8) e (9); ou seja, não é possível que João tenha passado manteiga no pão com a faca de manhã e ao mesmo tempo João não ter passado manteiga no pão de manhã (tratando-se, obviamente, do mesmo evento). Nesse mesmo sentido, se (8) é o caso, então o é (9), mas não (7): pode ser o caso que João tenha passado manteiga no pão de manhã, mas não que João tenha passado manteiga no pão com a faca de manhã – ele pode ter usado uma espátula. Por sua vez, se (9) é verdadeira, não temos garantia nem (8) nem que (7) também o são.
Contudo, com a formalização oferecida para as sentenças acima, não há como capturar tal intuição, pela simples razão de que predicados com um número diferente de argumentos (sua n-adicidade) são predicados distintos – apesar de usarmos PASSAR5 nos exemplos acima, não há como indicar logicamente que o PASSAR4 de (7), que tem 5 argumentos – joão, manteiga, pão, faca, manhã – tem alguma relação com o PASSAR4 de (8), que tem 4 argumentos, e assim não capturamos a intuição de que, mesmo mudando o número de argumento relacionados por um predicado, não necessariamente indicamos que se trata de predicados distintos. A única maneira de solucionar esse impasse é lançar mão dos chamados postulados de significação. Contudo, tal saída ad hoc, pois os postulados de significação funcionariam caso-a-caso da seguinte maneira: para estabelecer que o predicado da sentença (7), PASSAR que tem 5 argumentos (indicado, por exemplo, por “PASSAR5”), e o predicado da sentença (8), PASSAR que tem 4 argumentos (“PASSAR4”), é preciso uma regra do tipo “toda vez que PASSAR5 é o caso, então também o é PASSAR4”. Se quiséssemos indicar que se (7) é o caso, (9) também é, precisaríamos de mais uma regra. A lição a ser tirada aqui, é que, mesmo com todas as regras possíveis, nossa intuição é diferente e relaciona-se com as relações dos predicados entre si.
Tal intuição é preservada e os acarretamentos garantidos de maneira bastante elegante ao lançarmos mão de uma semântica que conta com eventos:
(7c) qForum Studyofmath Of Szh 1 Study Of Math Eventos - Enciclopédia Virtual de Psicolinguísticag v Of Square Study Of Math xForum Studyofmath Of Szh 1 Study Of Math Eventos - Enciclopédia Virtual de Psicolinguísticag s Study Of Math o Study Of Math c c Study Of Math Study Of Math